Construção da imagem narrativa

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A arte, em todas as suas formas, reflete aspectos da condição humana. Na medida em que ela nos leva a contemplar, refletir e questionar, a arte nos torna pessoas melhores. A literatura oferece um contexto de ficção que nos dá oportunidade de viver situações que normalmente não experimentaríamos em nossas vidas cotidianas. Por meio da leitura, nos colocamos no lugar dos personagens e vivemos suas questões.

Nos livros ilustrados, esse deslocamento do leitor deve ser potencializado por imagens narrativas instigam o ato de contemplar. O ilustrador escolhe o ponto de vista através do qual o observamos a cena. Dessa forma, o leitor poderá ser distanciado da ação, como quem observa ao longe, ou assumir um posicionamento próximo e participativo. Este é o efeito que Chris van Allsburg propõe em algumas das imagens que criou para o livro “Jumanji”, com texto também de sua autoria, publicado no Brasil pela Cosac Naify. Nas duas cenas que destacamos abaixo, ele posicionou a linha do horizonte na parte inferior da imagem proporcionando ao leitor uma visão de baixo para cima, como a de uma criança. O plano mais fechado enfatiza a ação principal e aproxima o leitor da ação. 

Além do ponto de vista, há outros meios pelos quais o ilustrador pode provocar uma interação mais intensa entre leitor e imagem, como o uso de formas sugeridas, que estimulam à construção de uma interpretação pessoal. Esse recurso é utilizado com muita propriedade pela ilustradora Carme Solé no livro “A cruzada das crianças”, com texto de Bertold Brecht, publicado no Brasil pela editora Pulo do Gato. As imagens, que remetem ao estilo expressionista da artista alemã Käthe Kollwitz, representam com rabiscos e borrões o cenário de destruição que assolou a Polônia na Segunda Guerra Mundial. Os horrores da guerra não estão explicitamente representados, apenas o caos. No entanto, não é difícil para o leitor  perceber as manchas como um cenário muito mais complexo. Por oferecer um vasto terreno para a interpretação, a imagem é bastante comovente.

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As imagens narrativas devem levar o leitor à contemplação, que deixa de ser uma atitude passiva na medida que induz à interpretação e à criação. De fato, muitas vezes, sem que se dê conta, o leitor cria significados para o que vê, mas atribui ao autor da imagem a sua própria criação. Esse é um verdadeiro ato de fruição. Se uma imagem é capaz de conduzir o leitor ao ato de criar, a conexão entre os dois será muito mais forte.

Mais do que descrever, as imagens devem narrar. Elas devem oferecer caminhos para que o leitor percorra em seu processo de interpretação e assim viva novas experiências. Quando a percepção desencadeia esse processo de fruição, se estabelece uma conexão afetiva entre o leitor e a imagem. E, por meio desse encontro, a imagem tocará o leitor e permanecerá viva em sua memória.

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